
Do alto dessa casa, pouca coisa faz diferença. Vinte de julho, trinta e um de dezembro, primeiro de janeiro. Realmente, tanto faz. O sol nasce todos os dia, sem nem considerar nosso calendário. 1980, 2008, 2020. Que diferença faz? Pra mim e pro sol, não faz nenhuma. Os dias se parecem uns com os outros. E não entendo porque as pessoas do mundo fazem tanta questão de "fatiar o tempo" em pedaços disformes. Anos, meses, horas, segundos. Acho engraçado quando me aconselham a "dar tempo" ao tempo. "Como assim?", me pergunto em pensamento. Não sei. Mas gostaria muito de saber. Não costumo demarcar o tempo pois não o vejo passar. Os dias são iguais. Não uso relógio de pulso e aquele outro, na parede da cozinha, simplesmente não funciona. Faltam-lhe pilhas. Pilhas que sempre esqueço. Assim como esqueço de comemorar datas festivas. Assim como esqueço de ligar pros amigos em seus aniversários. Apenas esqueço e pronto. Porque não faz diferença. Do alto dessa casa, pouca coisa faz diferença. Natal, páscoa, carnaval. Tanto faz. O sol continua lá, nasce e se põe do mesmo jeito. Será que ele sente tédio? Se eu raiasse todo dia, sempre daquele jeito, eu também sofreria de tédio. Vai ver é por isso que, às vezes, chove. Só pra fazer diferente. Acho que os dias se diferem uns dos outros por meros detalhes. Um deles é a presença, quase sempre temperamental, da lua. Garota de fases. Essa não sofre de tédio, aposto. Cada semana tá de um jeito. Realmente faz a diferença. Mas mesmo ela, muitas vezes, se repete. Tudo se repete. A começar pela minha vida: Um enorme punhado de horas cheias dos mesmos "bom-dias!", "com vai!" e "obrigado!". Não uso calendários e aquela agenda, acima da escrivaninha, não funciona. Faltam-lhe anotações. Anotações que sempre esqueço. Assim como esqueço de checar a secretária eletrônica. Assim como esqueço de retornar as ligações. Esqueço e pronto. Porque não faz diferença. Os dias se parecem uns com os outros mas, nos detalhes, encontramos as diferenças que nos fazem aprender. E quando aprendemos sentimos o tempo passar. E quando sinto, ja passou. E só ficou o que aprendi. Do alto dessa casa, pouca coisa faz diferença, dentre elas se encaixam as coisas que aprendemos...e a lua, com todas as suas fases. Então, começo a entender um pouco mais sobre os motivos que levam as pessoas do mundo a fatiar o tempo em pedaços disformes. Embora o meu tempo eu prefira não demarcar com muita precisão. Por não saber quanto tempo ainda tenho para fatiar. E o sol, do alto de todas as casas, não morre de tédio, somente se diverte. Vive a dar risadas, do quão são diferentes as pessoas do mundo e seus dias, aparentemente, "iguais".
(Maíra Viana)